Histórias no Mato Grosso
Histórias no Mato Grosso
Hoje é dia 7 de maio. Já fazem um mês e dezessete dias desde que cheguei ao Mato Grosso — uma terra em que eu nunca havia pisado antes.
Curiosamente, minha primeira experiência “mato-grossense” aconteceu muitos anos atrás, em 2013, quando viajei para o Mato Grosso do Sul enquanto fazia seminário pastoral. Naquela época, eu sonhava em ser pastor. Viajava como seminarista e carregava comigo aquele fervor típico de quem acredita ter encontrado sua missão definitiva na vida.
Lembro que, antes mesmo do ônibus encostar na rodoviária, eu me levantava e pedia a palavra para falar rapidamente com os passageiros. Dizia que existia uma igreja aberta na cidade, que Jesus os amava e que todos eram bem-vindos. Para mim, aquilo era uma atitude radical. Hoje, em 2026, descobri que existem pessoas pregando até dentro de avião — então talvez eu nem fosse tão ousado assim.
Mas não é sobre pregações inconvenientes que quero falar.
Quero falar sobre como fui parar, quase por acaso, nesse estado gigantesco, pujante e valioso que é o Mato Grosso.
Existe algo curioso em estar longe de casa e, ao mesmo tempo, sentir que parte dela ainda está presente. Embora eu não esteja em Goiás — meu estado natal, onde estão minhas raízes, minha identidade e minhas memórias — eu continuo carregando comigo a sensação de ser goiano. Mais do que isso: goianiense, nascido na Nova Vila, em Goiânia.
Talvez por isso o Mato Grosso nunca tenha me parecido completamente estranho. Existe uma familiaridade silenciosa entre os estados do Centro-Oeste. O jeito das pessoas, o calor, as estradas longas, o agronegócio movendo cidades inteiras, o horizonte aberto e o cheiro de terra molhada depois da chuva. Ainda que o Mato Grosso tenha proporções muito maiores e carregue consigo partes da Amazônia e do Pantanal — biomas que eu ainda sonho conhecer — há algo aqui que conversa diretamente com minhas origens.
Minha vinda aconteceu por causa de um trabalho em uma construtora de Goiânia chamada Construtora Caiapó. Fui contratado e, logo em seguida, enviado para trabalhar como administrativo de obras em Primavera do Leste. Como o próprio nome sugere, a cidade fica mais ao leste do estado, entre Barra do Garças e Cuiabá.
Desde que cheguei, tive a oportunidade de conhecer um pouco da cultura local, da gastronomia, da economia e da história recente da cidade. Conheci comerciantes, trabalhadores, histórias de gente que veio de vários lugares do Brasil para construir a vida aqui. Também visitei Poxoréu, município do qual Primavera do Leste foi desmembrada, além de Rondonópolis, uma cidade maior, mais antiga e com aquele ar típico de polo regional consolidado.
Entre uma rotina puxada e outra, ainda consegui viver pequenos respiros. Um deles foi conhecer a Cachoeira do Porto, em um raro momento de descanso nesse período de vida “no trecho”. Trilha, natureza, água gelada e silêncio. Às vezes, tudo o que a gente precisa é disso: alguns minutos longe do barulho da própria cabeça.
Cheguei aqui no dia 20 de março, poucos dias depois de completar 32 anos.
Naquele momento, eu precisava desesperadamente de um emprego.
Minha vida financeira estava entrando em colapso. A bolsa do mestrado havia acabado e o carro que eu usava para fazer corridas de aplicativo — e complementar minha renda — estava praticamente se desfazendo junto com meus planos.
As chuvas do começo do ano castigaram o veículo. Problemas mecânicos, elétricos, multas, impostos atrasados, parcelas acumulando… o carro que eu havia conseguido comprar com tanto esforço começava a se transformar em uma bomba-relógio financeira.
Foi então que percebi que precisava de algo fixo. Não apenas pelo dinheiro, mas pela estabilidade mental.
Trabalhar com aplicativo parecia liberdade quando comecei. Depois de um tempo, virou desgaste. Horas intermináveis dirigindo, cansaço constante, ansiedade financeira e a sensação amarga de estar sobrevivendo, não vivendo.
E talvez uma das partes mais difíceis fosse admitir para mim mesmo que aquela não era a vida que eu imaginava ter depois de uma graduação em universidade federal e um mestrado em andamento.
Mas eu também estava pagando o preço das minhas próprias decisões.
Pouco antes de vir para o Mato Grosso, gastei mais do que deveria em uma viagem para Florianópolis. Na minha cabeça, aquela viagem representava muito mais do que turismo. Eu acreditava, sinceramente, que estava começando uma nova etapa da vida.
Conheci uma moça pelo Instagram e me convenci de que talvez ali existisse a possibilidade de construir algo sólido. Eu imaginava uma mudança de cidade, uma nova rotina, uma vida diferente no sul do Brasil. Pela primeira vez em muito tempo, achei que as coisas estavam finalmente se alinhando.
Mas não estavam.
O relacionamento durou o menor tempo possível. Foi intenso, rápido e frustrante. A distância pesou, as expectativas quebraram e nenhuma das portas que eu imaginava atravessar realmente se abriu.
E a vida tem dessas.
Às vezes, você cria um futuro inteiro na cabeça… e precisa assistir ele desmoronar antes mesmo de começar.
Talvez amadurecer seja justamente isso: entender que nem tudo o que parece destino veio para permanecer.

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